A jornada para superar o medo
História real de um caso resolvido em terapia breve.


Ela estava com muito medo, e nem sabia a causa
Rosa estava na fila do ônibus quando o telefone tocou.
Do outro lado da linha, a voz da irmã veio apressada:
— “Você pode ficar com a mãe hoje? Precisei internar para fazer exames.”
Naquele instante, algo estranho aconteceu.
O chão pareceu desaparecer sob seus pés.
O coração disparou.
As mãos ficaram frias.
A visão escureceu.
Não fazia sentido.
Ela não era uma mulher fraca.
Rosa havia atravessado muitas batalhas na vida.
Foi adotada aos cinco anos por uma mulher simples, mas profundamente amorosa — a mãe que ela aprenderia a chamar de “mãe do coração”.
Foi essa mulher que lhe ensinou respeito, dignidade, honestidade e força.
Graças a ela, Rosa construiu família, criou uma filha, trabalhou, venceu dificuldades e aprendeu a seguir em frente mesmo nos dias mais difíceis.
Mas agora… diante da possibilidade de cuidar daquela mãe fragilizada pelo Alzheimer… seu corpo reagia como se estivesse diante de um perigo mortal.
E foi isso que mais a assustou.
Porque a mente dela dizia:
— “Vai dar tudo certo.”
Mas o corpo gritava:
— “Você não consegue.”
Foi então que Rosa procurou ajuda.
No começo, acreditava que precisava apenas “se controlar”.
Talvez respirar fundo.
Talvez pensar positivo.
Talvez aprender alguma técnica racional.
Mas durante o processo terapêutico, algo muito mais profundo apareceu.
Aquela reação não tinha começado naquele telefonema.
Rosa sentia o corpo entrando em colapso.
A simples ideia de cuidar da mãe fazia surgir falta de ar, sensação de desmaio, pressão elevada, dores pelo corpo, ansiedade intensa e uma angústia impossível de explicar racionalmente.
Ela sabia que amava aquela mulher.
Sabia que queria ajudá-la.
Mas algo dentro dela reagia como se estivesse diante de uma ameaça mortal.
Então eu lhe perguntei:
— “Rosa… o que você precisa para continuar vivendo a sua vida normalmente? Para conseguir cuidar da sua mãe, do seu marido, da sua filha… sem que seu corpo entre em sofrimento?”
Ela me olhou desconfiada.
Ainda não conseguia compreender o que estava acontecendo.
O grau de perturbação emocional era enorme.
Mas, aos poucos, começou a perceber algo importante:
A vida continuava acontecendo.
E ela precisava encontrar uma forma de permanecer inteira dentro dela.
Precisava voltar a viver.
Precisava conseguir amar sem desmoronar.
Tentando entender o que estava acontecendo, Rosa percebeu que lhe faltavam exatamente três coisas:
Coragem.
Força.
Confiança na própria vida.
Então expliquei algo fundamental:
— “Você pode tentar entender o que está acontecendo pela mente… mas o verdadeiro palco da vida é o corpo. É nele que os conflitos emocionais aparecem.”
O corpo estava falando.
E o que ele dizia era claro:
Existia um conflito profundo entre a mulher adulta que Rosa havia se tornado… e algo que ela aprendeu ainda muito pequena.
Quando criança, ao chegar naquela família que literalmente a salvou, seu cérebro emocional registrou aprendizados profundos de sobrevivência.
Esses aprendizados deixaram de ser simples ideias.
Transformaram-se em mandatos internos.
Compromissos invisíveis.
Leis emocionais.
Regras inconscientes sobre o que precisava ser feito para continuar pertencendo, sendo amada e permanecendo segura.
Seu sistema emocional aprendeu:
“Minha segurança está nessa presença.”
“Meu amor depende disso.”
“Minha vida depende disso.”
E então surgiu o grande conflito.
Porque emocionalmente, afastar-se desse aprendizado parecia perigoso.
O ser humano carrega uma memória ancestral muito profunda:
Afastar-se do grupo significava morrer.
Foi então que iniciamos o relaxamento terapêutico.
E aqui começa uma das partes mais importantes do processo:
As conversas internas reveladoras da verdade emocional.
Rosa entrou facilmente no estado de relaxamento.
Logo percebeu a dor no corpo.
Pedi que observasse aquela sensação.
Expliquei que aquela dor não era um inimigo.
Era a manifestação física de um aprendizado emocional muito antigo.
Então algo começou a surgir.
A figura da mãe apareceu.
Não apenas como pessoa.
Mas como representante viva daquele aprendizado emocional que comandava sua vida.
No começo, a mãe sorriu levemente… até deu risada.
Como quem dizia:
— “Você entendeu tudo errado.”
Rosa ficou emocionada.
E então ouviu algo que jamais tinha conseguido perceber durante toda a vida:
— “Eu nunca quis que você dependesse da minha presença para se sentir segura.”
A mãe explicou:
Ela havia preparado Rosa para ser uma mulher forte.
Segura.
Capaz de viver.
Capaz de continuar.
Mas a criança dentro dela interpretou diferente.
Ela confundiu amor com dependência emocional.
Confundiu presença com segurança.
Confundiu vínculo com sobrevivência.
E naquele instante, finalmente compreendeu o verdadeiro ensinamento da mãe:
A segurança não estava na presença física dela.
A segurança precisava existir dentro dela própria.
Rosa começou então a perceber como aquele aprendizado antigo havia permanecido congelado dentro do seu sistema emocional, mesmo depois de adulta.
A vida amadureceu.
As experiências mudaram.
Mas o corpo continuava reagindo como a criança de cinco anos que temia perder tudo.
Ela precisava de liberdade.
Precisava sentir que podia continuar vivendo sem trair o amor que sentia.
E foi nesse momento que aconteceu a verdadeira transformação.
Naquela conversa interna profunda, Rosa recebeu da mãe algo que nunca havia permitido a si mesma sentir:
Permissão para confiar na vida.
Permissão para continuar.
Permissão para sentir-se segura.
Quando compreendeu isso, o conflito terminou.
Seu corpo simplesmente deixou de lutar.
Rosa abriu os olhos em silêncio.
Respirou profundamente.
A sensação de desespero havia desaparecido.
As dores no corpo sumiram.
A necessidade de entrar em colapso deixou de existir.
Pela primeira vez, conseguia pensar em visitar a mãe sem sentir que perderia a própria estabilidade emocional.
Porque agora compreendia:
O amor não exigia sofrimento.
A presença da mãe havia ensinado força — não dependência.
O conflito foi embora.
E o que restava agora era algo muito maior:
Assumir a própria vida.
Alejandro Francisco Rubio - Terapia Breve em Curitiba
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